MENU

LOGIN

A Região não se preparou para o 'boom' no turismo e são os hotéis que estão a pagar caro pela falta de formação

O empresário hoteleiro, Fernando Neves, põe tudo em pratos limpos. Os hoteleiros açorianos estão a pagar o salário mínimo a trabalhadores indiferenciados que estão a ser formados nos hotéis. Isto porque a Região não antecipou soluções, ao nível da formação, para o 'boom' no turismo. Nos novos contratos que estão em cima da mesa em negociação, 75% dos trabalhadores com formação têm ordenados acima do salário mínimo e todos têm grande probabilidade de evoluir na carreira porque há grande falta de chefias intermédias. E se os hotéis não pagam mais é porque "têm ainda fragilidades" e têm que pensar nas flutuações dos fluxos turísticos e garantir sempre ordenados a tempo e horas.  
 
Correio dos Açores - Tem surgido alguma polémica sobre a remuneração dos profissionais de hotelaria nos Açores…  
 
Fernando Neves (Responsável pela Associação de Hotelaria de Portugal nos Açores)  
 
- Efectivamente, tem havido, ao longo dos tempos, uma polémica que não é saudável porque dá uma imagem muito má do sector e porque não corresponde ao que se passa. Trabalhadores bem pagos ou mal pagos, depende muito do termo de comparação. E, no da remuneração da hotelaria, temos de ter como comparação as remunerações que se praticavam em 2009, ano em que foi aprovada a última tabela. Se compararmos os actuais níveis de remuneração com 2009, o que se verifica é que existe um aumento real das remunerações.  
 
No sector da hotelaria a mão-de-obra disponível é relativamente exígua e a procura é bastante elevada. Por esse facto, as remunerações que estão a ser praticadas são bastante elevadas porque funciona a lei da oferta e da procura.  
 
Se fizermos a comparação de algumas áreas e funções na hotelaria, como o caso mais flagrante que é a área da cozinha, as contas, por alto, permitem ver que há um aumento em relação a 2009 de 30 a 40%, o que é bastante mais do que o nível de inflação que se deu neste período.  
 
O que é importante transmitir é que a imagem que se tem sido transmitida através de várias intervenções, não corresponde à realidade.  
 
Neste momento, as remunerações poderão não ser as ideais, mas o que é facto é que as remunerações ao nível da hotelaria têm subido e têm acompanhado as maiores exigências que o sector está a ter.  
 
Uma das críticas é que mais de 50% das remunerações na hotelaria corresponde ao salário mínimo…  
 
Isso não corresponde à realidade. O que acontece é que, dada a exiguidade de oferta de mão-de-obra disponível e à grande procura, estáse a recorrer a alguma mão-de-obra que tem de ser formada no local de trabalho e a hotelaria está a ter algum papel de formação nesta área.  
 
Naturalmente que, nestes casos, a produtividade é baixa e, consequentemente, a remuneração corresponderá ao ordenado mínimo.  
 
A nível de hotelaria, todas as funções que estão a ser feitas para profissionais formados, estão acima do ordenado mínimo. Neste momento há uma tabela que está a ser negociada em que para cerca de 60 das categorias profissionais que existem no sector de hotelaria, ao nível de contratos, mais de 75% estão acima do ordenado mínimo.  
 
Há, efectivamente, praticantes que estão a iniciar a sua carreira profissional a quem estamos a dar formação que, naturalmente, terá uma remuneração um pouco mais baixa e que estará ao nível do ordenado mínimo. Mas são apenas estes.  
 
Critica-se também o facto de o turismo crescer, os hotéis terem mais clientes e por isso mais rendimento, mas pagarem ordenados baixos…  
 
Não serão tão baixos como se tem querido fazer passar. Na hotelaria é fundamental ter dois sentidos bem apurados. Um é a memória, para ter presente as dificuldades sentidas nos tempos de crise e se possa aprender com essas experiências. Outro é a visão, porque precisamos de ver para além dos tempos de crescimento, para que se possam preparar os ciclos de crise e de redução de actividade que, naturalmente, se vão passar.  
 
A hotelaria cria e tem criado muitos postos de trabalho. Os hoteleiros estão conscientes da importância de assegurar condições que dignificam os recursos humanos. Têm criado postos de trabalho e tem seguido uma política de sustentabilidade que permita continuar a assegurar esses postos de trabalho e continuar a assumir atempadamente o pagamento de remunerações. Não podemos continuar em euforias.  
 
Estamos num tempo alto, os ordenados têm sido actualizados tanto quanto possível, mas é preciso ter uma política de sustentabilidade.  
 
Há sectores de actividade, em que as euforias acontecem e mais tarde paga-se caro por isso.  
 
Pode oferecer-se muito e pode-se distribuir muito. Mas, quando se sucedem as crises, as dificuldades aumentam.  
 
O sector público pode, facilmente, recuperar da crise e aumentar os impostos. E se as coisas forem muito más, vem a Troika e nós, através dos impostos, vamos pagar mais. No sector privado, e no caso da hotelaria, temos de precaver o futuro. A hotelaria é um sector de capital intensivo, as empresas têm de estar bem capitalizadas para assegurar não só a fase inicial de construção de um hotel, com custos muito elevados, como a sua manutenção que é permanente. É preciso, com regularidade, adaptar e renovar as qualidades dos hotéis. As empresas têm de estar seguras e têm de ter capacidade para responder a esta necessidade de capital intensivo.  
 
Esta é, paralelamente e simultaneamente, uma área de mão-de-obra intensiva, em que os recursos humanos têm um papel básico e fundamental. E temos, cada vez mais, nos Açores, alguma escassez de mão-de-obra qualificada no turismo. Não se apostou devidamente na formação.  
 
Nas entrelinhas quer dizer que a Região não se preparou, com antecedência, para o 'boom' no turismo?  
 
Não se preparou e, neste momento, estamos a pagar esse erro de falta de aposta na formação nos recursos humanos. Este é o grande desafio que temos de alterar rapidamente. Temos que ter a capacidade de ganhar este desafio, aumentando a formação quer em qualidade, quer em quantidade. É fundamental chamarmos para o sector mais pessoas, jovens, pessoas que estejam desempregadas em sectores onde haja desemprego e que têm aqui, no turismo e na hotelaria, um sector que cria postos e trabalho e assegura o seu futuro.  
 
Nos Açores, na sequência do desenvolvimento a que se tem assistido, a falta de mão-deobra no turismo é flagrante. Não se investiu e continua a não se investir, de forma atempada, ao nível de formação e estamos a pagar esse erro. E a alteração desta situação é fundamental para consolidar a nossa oferta. O turismo temse vindo a confirmar como o grande motor do desenvolvimento económico e a alternativa para construir um futuro melhor para todos os açorianos.  
 
É fundamental atrair jovens para o turismo para que seja alternativa a outros sectores. É por isso que esta polémica das remunerações não é benéfica, porque não corresponde à realidade e dá uma imagem incorrecta do que é o turismo e do que são as carreiras no turismo.  
 
Este é um sector onde a taxa de empregabilidade é muito elevada e a mão-deobra formada é rapidamente absorvida, com oportunidade de uma rápida progressão. A hotelaria e o turismo dão a possibilidade a quem entra no sector, de alguma regularidade, ter uma progressão na carreira, e o crescimento está facilitado. Há muitos postos intermédios a preencher, de chefias, de responsabilidade e o sector está a oferecer isso: um emprego estável, com qualidade, com diferenciação.  
 
O turismo, e no caso a hotelaria, é uma actividade de pessoas para pessoas. Por isso é que é o turismo é conhecido como a indústria da paz, onde os recursos humanos têm um papel fundamental. Quem está no turismo pode evoluir, ter experiências, conhecer outras culturas que nos visitam. É uma profissão atractiva, em desenvolvimento e que tem todas as condições para que possa oferecer boas condições.  
 
Apesar do que afirma, continua a haver algumas dificuldades nas negociações entre a Câmara do Comércio e o Sindicato da Hotelaria. Acredita que se vai chegar a um consenso?  
 
Este consenso é fundamental para bem do sector. Uma negociação tem duas partes, é uma balança que tem de estar equilibrada, tem de haver cedências e conquistas de ambas as partes e é no diálogo que isso se consegue.  
 
Tem, eventualmente, faltado algum diálogo e quando isso não é concretizável, a responsabilidade não é só de uma das partes. Mas é fundamental que se chegue a um consenso e o acordo seja algo que apoie a consolidação e valorização de um sector que é fundamental na economia regional.  
 
O rendimento por quarto nos Açores é o mais baixo de todas as regiões portuguesas  
 
Como tem evoluído a rentabilidade do sector hoteleiro nos Açores?  
 
A estrutura dos hotéis nos Açores é muito frágil. Os hoteleiros passaram uma crise acentuada que fragilizou muitas as empresas. Essa fragilidade é notória em alguma descapitalização destas empresas num sector de capital intensivo que não permitiu que os hotéis pudessem modernizar-se e remodelar as suas instalações.  
 
Chegámos a um período (2014/2015) em que as empresas estavam descapitalizadas, não estavam modernizadas. E isto numa altura em que aumentava a necessidade de adaptação aos novos tempos.  
 
A hotelaria de há 10 anos não tem nada a ver com a hotelaria de hoje em dia. Há 10 ou 15 anos a hotelaria era um serviço de alojamento. Havia camas que as pessoas ocupavam e serviam-se os pequenos-almoços. Naquela altura bastava isso.  
 
Hoje, a hotelaria é uma actividade muito complexa. A hotelaria e a aviação são sectores que estão com maior pressão. Pressão de inovação, de diferenciação, de criação de novos serviços.  
 
É visível, nomeadamente ao nível da aviação, o que se passava há alguns anos e o que se passa hoje em dia. Isso permitiu o "boom" do turismo a nível internacional, a facilidade de acessibilidades.  
 
Com inovação e diferenciação, porque as empresas de aviação são de maior dimensão e mais capitalizadas, o sector deu uma boa resposta.  
 
Face a esta inovação, diferenciação e à oferta de experiências que caracteriza o turismo de hoje em dia, a tarefa da hotelaria nos Açores tem sido dificultada.  
 
Existem hoje mecanismos de gestão hoteleira muito mais apurados que tem em conta a rentabilidade de um hotel, a política de preços adaptada à disponibilidade e à procura. Pode haver uma política de preços dinâmica que varia de acordo com a oferta e a adopção desta política tem sido um pouco dificultada pela fragilidade em que o sector hoteleiro açoriano se apresentou no início do 'boom' do turismo.  
 
Isso faz com que a rentabilidade não tenha sido aproveitada na totalidade. Ainda o ano passado foi publicado um estudo que dizia que os hoteleiros nos Açores não tinham sido capazes de tirar partido do crescimento do turismo e que os preços e rentabilidade eram baixos. As conclusões deste estudo confirmam-se.  
 
Nos Açores temos os RevPar [indicador mais preciso de rentabilidade de um hotel – de quartos disponíveis] mais baixos a nível nacional e não se tem acompanhado o crescimento do RevPar de outras regiões portuguesas.  
 
Continuamos a ter, nas épocas baixas, nos Açores, o valor de venda dos quartos na ordem dos 13 a 14 euros. Por exemplo, em Janeiro de 2018 tivemos um RevPar de 14 euros ao nível da Região, e em Fevereiro de 17 euros, o que não é rentável.  
 
Por exemplo, o RevPar em 2008 correspondia a 74% do RevPar nacional e em 2017 tivemos um RevPar que foi 67% do RevPar nacional. Ou seja, afastámo-nos da média nacional. O nosso RevPar [indicador mais preciso de rentabilidade de um hotel – revenue de quartos está a cerca de metade do RevPar de Lisboa. Isso acontece porquê?  
 
Os hotéis nos Açores e o turismo nos Açores estão muito dependentes da tour/operação. Normalmente, os contactos com a tour/operação são feitos com bastante antecedência e o que se passa é que os preços que são praticados hoje são fruto de uma negociação que ocorreu há vários meses. Isso teve alguma influência no RevPar porque, em 2015, quando começou este 'boom', não havia contratos, não havia muita capacidade para negociação de preços e os preços foram baixos. Depois, porque não temos conseguido essa capacidade de acompanhar os preços que se praticam noutras regiões.  
 
A estrutura hoteleira nos Açores é constituída por pequenas unidades hoteleiras que não pertencem a grandes cadeias de hotéis. Muitas vezes, são hotéis de pequena dimensão, com algumas fragilidades estruturais, que não dão a capacidade suficiente para implementar novos sistemas de gestão, corresponder aos novos canais de distribuição, como a venda directa, que requer recursos e grande preparação a nível de internet.  
 
Se as unidades hoteleiras dos Açores estivessem mais capitalizadas com estruturas mais sólidas, estariam a ganhar mais por quarto?  
 
Estaria a Região a ganhar mais e a rentabilidade seria maior. Para que possamos continuar a ter um turismo forte, dar sustentabilidade e consolidar a nossa oferta turística, é fundamental consolidar e dar estrutura aos nossos hotéis.  
 
Como é que isso se faz?  
 
Se calhar, tem de haver sistemas de apoio aos hotéis, criar meios para apoiar na sua capitalização, dar mais formação e tornar mais rentáveis os recursos humanos, e apoiar a criação de sistemas de gestão mais actuais a nível de hotel.  
 
A formação dos recursos humanos tem de ser a todos os níveis. Até ao nível da gestão hoteleira é fundamental que também haja alguma formação.  
 
A responsabilidade da formação é, essencialmente, do sector público. E os hoteleiros têm de tomar, também, consciência da importância do investimento na formação e isso está a acontecer. Estamos a dar formação a trabalhadores indiferenciados que temos necessidade de admitir além da formação contínua dos nossos trabalhadores. Essa consciência tem de ser cada vez maior da parte de todos os intervenientes.  
 
Fixámo-nos na declaração que fez de que a rentabilidade por quarto é a mais baixa do país e que não está a ser fácil inverter esta tendência por a estrutura hoteleira açoriana ser frágil. Deixou claro que formação no turismo tem de chegar à gestão hoteleira. E somos levados a esta questão: Estamos a vender o paraíso por "tuta e meia"?  
 
Há falta de meios. Não podemos dar por adquirido aquilo que não existe e não temos.  
 
Estamos a ser, na Região, muito reactivos.  
 
Estamos a responder a problemas que nos vão surgindo e temos de ser mais pró-activos a vários níveis.  
 
Tivemos problemas ao nível de muitas estruturas públicas de apoio ao turismo, como miradouros. Tivemos problemas ao longo de vários anos, a este nível, e espero que as soluções que estão a ser encontradas, o sejam de forma próactiva já pensando no crescimento que vamos ter. E em várias estruturas temos de ser mais pró-activos e ter mais visão. Penso que temos de ter mais atenção à visão do que vai ser o futuro do turismo nos Açores e prepararmo-nos melhor para isso.  

in Correio dos Açores

Voltar