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"Hoteleiros são totalmente contra um aeroporto que anule a Portela"

Líder da associação de hotelaria não acredita que haja muito espaço para consolidação na hotelaria em 2021. E espera que a TAP passe a ir buscar mais turistas a destinos estratégicos.

2020 é dos anos mais duros para o turismo de que há memória. Unidades encerradas ou praticamente às moscas devido à pandemia. A associação do setor, AHP, diz que 2021 será a meio gás e que 2022 já poderá ser de recuperação - mas longe dos valores de 2019.

É presidente da AHP e hoteleiro. Alguma vez pensou viver um ano como este?

Não. Mas desde 1973, quando comecei a estar no grupo hoteleiro a que pertenço, que já tivemos problemas complicados: desde a altura em que houve taxas de juro de 30% até ao pós-25 de Abril. Esta é uma crise que, apesar de tudo, traz uma esperança porque sabemos que é algo que não vai durar para sempre. Sabíamos que a vacina ia acontecer, não sabíamos quando nem com que eficácia, mas tínhamos essa esperança. Mas é muito duro passar, como passámos, quase oito meses sem clientes e sabemos que temos mais alguns meses pela frente com muito poucos clientes também.

Qual o volume de perdas?

Estimamos é que no princípio do ano estarão encerrados cerca de 75% dos hotéis. Vamos perder cerca de 80% das receitas habituais do turismo e da hoteleira em geral . São perdas que demoram muito tempo a recuperar. Não podemos pensar que para o ano, ou em dois anos, recuperamos estas perdas.

Mesmo atingindo os níveis de 2019 rapidamente, apesar de não estar previsto?

Não acreditamos que vamos atingir. Há dificuldades de viagem em termos sanitários seguros; há eventos que se organizavam e que este ano não aconteceram e para o ano vão organizar-se menos. A aviação prevê que só em 2024 se chegue próximo dos níveis de 2019. Em Portugal, que depende em mais de 90% do transporte aéreo, temos de olhar para o que a aviação pensa para podermos pensar parecido. Os analistas mundiais pensam que 2022 já vai ser um ano positivo. Mas acredito que só em 2024 é que estaremos ao nível de 2019.

Está em causa a sobrevivência de muitas unidades hoteleiras?

Não está em causa a sobrevivência de muitas unidades hoteleiras na medida em que, o governo, na primeira vaga foi lesto e teve medidas muito concretas...

O lay-off simplificado?
E não só. O apoio de tesouraria. Estamos todos muito interessados em manter os postos de trabalho - tanto o governo como a hotelaria - porque são funcionários que têm formação.

São ativos.
São ativos. Todos queremos guardar as pessoas para quando houver retoma. O que é que aconteceu?! O governo, e a sociedade em geral, pensou que em junho ou julho os casos seriam menos e voltava a haver turismo. Isso desvaneceu-se em Portugal quando houve a situação da zona de Lisboa, que ficou contingentada e não teve acesso a esse turismo, e depois a segunda vaga. A segunda vaga veio e o governo agora trouxe novas medidas, tarde. Algumas unidades vão ficar pelo caminho certamente, mas não terá um impacto se as medidas que estão para ser publicadas, o seu desenho for correspondente às necessidades.

Pode haver movimentos de consolidação no setor no próximo ano? Nos próximos dois?
Pode. Não é impossível que o haja.

Mas é provável?
Não é muito provável. Hoje sabemos que os fundos internacionais se movimentam nestas oportunidades com o intuito de fazerem mais-valias no curto prazo. Mas se tivermos apoio de tesouraria, garantido pelo Estado, só quem não quiser é que não o utiliza. Diferentemente do que aconteceu na crise anterior, em 2009. Nessa altura, os bancos tinham uma situação de liquidez bastante pior do que têm agora. E, em vez de criarem condições para dar apoio, o que fizeram foi com que aqueles hotéis que tinham acabado de ser construídos, e que tinham mais dívida, tivesse que ir parar às mãos dos fundos. Isso foi muito negativo mas penso que a situação hoje em dia - não só do apoio do governo mas também da situação dos bancos - é diferente e permite apoiar a situação.

Que balanço faz dos apoios do governo? Chegam a tempo?

Não chegam a tempo porque haverá situações de algum atraso até de ordenados ou de décimo terceiro mês porque esta tesouraria não fica disponível de imediato, ainda vai ser regulamentada. E temos de ver qual vai ser o conteúdo, quais os parâmetros. Quando foi da primeira linha Covid houve um limite de apoio que foi, para algumas situações, insuficiente. Não foi grave porque foi por pouco tempo, mas agora a situação é mais grave. Em Portugal, e na Europa, há um cuidado especial pelas PME e deve ter-se, mas não podemos esquecer que as médias e as grandes - a maior parte da hotelaria - são quem emprega mais gente.

E houve quem não tenha podido usufruir por isso?
Não puderam chegar muitas vezes ao valor que precisam. É isso que queremos ver como é que vem transcrito agora nos parâmetros para dizer qual os apoios que as empresas podem ter e, naturalmente, que os bancos estarão atentos a essas situações porque, por estranho que pareça, da primeira vez houve empresas que não precisavam mas que aproveitaram. Sei que é difícil apurarmos essa situação, mas tem de haver mais cuidado para a situação chegar proporcionalmente a todos e para podermos manter as ofertas para que, quando houver turistas, também haja hotéis.

Quais as perspetivas para 2021?
A primeira fase da vacinação é feita para três grupos: os profissionais, os que estão nos lares e o que lá trabalham, e os que têm mais risco. Desses três, nenhum viaja.

Tem sido apontada a Páscoa...
Têm apontado a Páscoa porque é Páscoa. Não estou a dizer que não há pessoas que viajam. Mas quem é que tem mais possibilidades de viajar e menos risco?! Os mais novos. Esses poderão continuar a viajar e, face à situação, poderão durante o primeiro trimestre aparecer a viajar mais. Mas para isso era importante que aquilo que tem sido falado nas instituições do turismo - IATA e Organização Mundial do Turismo - fosse aplicado. Ou seja, que as companhias aéreas, de uma forma geral, exigissem o teste à covid 48 ou 72 horas antes da viagem. Com isso, as pessoas passariam a viajar em confiança, sendo que os aeroportos seriam ainda uma zona de risco. Há companhias que fazem já isso.

E destinos.
E há destinos que o exigem. Se isso não se concretizar, só a partir de junho é que teremos uma situação já razoável. Quando estou a dizer razoável é não estaremos a metade daquilo que houve de ocupação em 2019.

Melhor que 2020, mas pior que 2019?
Sim, melhor que 2020 mas muito pior que 2019. Em 2022 ainda não chegaremos aos níveis de 2019. O que quero dizer com isto é que 2021 vai ser ainda um ano de resultados negativos para a hotelaria em geral. Mas 2022 será positivo.

A ajuda que o turismo deu à economia no passado vai ser igual há que pode dar a partir de 2021?
As perspetivas da Comissão Europeia são inferiores à média para Portugal e Espanha porque são países que dependem muito do turismo. Todos já estamos a ver que o ano de 2021 só vai começar, digamos, em meados do ano e não vai ser suficiente para recuperarmos. Mas 2022 vai com certeza.

Pode voltar a ser um motor da economia?
Já pode ser outra vez um motor da economia. O turismo é muito transversal, atinge todas as áreas, desde a agricultura até às áreas de marketing e digital. Tudo isso, quando o turismo funciona, tem mais consumo e investimento.

O plano de reestruturação da TAP foi apresentado. Que avaliação faz?
Quando se olha para a TAP tem de se olhar como qualquer empresário olha para uma empresa: são para serem rentáveis, que é para poderem ter um resultado positivo. Aquelas que não sejam rentáveis têm de cumprir uma função pública e são subsidiadas. O que é importante é olhar para a TAP nessa perspetiva e não numa situação mais ou menos megalómana, com alguns objetivos que mais tarde virão a ser encontrados porque é que a TAP cresceu tanto. Temos ideias concretas sobre isso.

O que é que quer dizer?
Há coisas que não se podem dizer. Mas há uma coisa: a TAP a crescer comprou muitos aviões e quando se compram muitos aviões normalmente há situações que estão relacionadas com a compra desses aviões.

A TAP não devia ter crescido tanto, tão rápido?

A TAP tem uma situação desequilibrada mesmo com o número de aviões que tem pelas estatísticas. A TAP tem maior número de pessoas por avião...

Tal como disse o ministro.
Mais do que a média. É estatística. E se for assim, não há concorrência. Não é possível. O crescimento não foi feito a olhar para o equilíbrio e sustentação da TAP. Agora, há que fazer marcha atrás e olhar para as coisas na base zero e dizer: o que é que a TAP precisa para servir o País e para ser uma empresa rentável.

O plano de reestruturação vai responder a isso?
Tem de responder a isso. Não o conhecemos em detalhe.

Conhecemos algumas coisas.
Vou dar um exemplo quase caricato: antes, e mesmo depois da pandemia, estava programada mas acabou por não se fazer. Mas esteva para ser inaugurada uma linha Lisboa-Cancún. Acha que é para trazer os habitantes de Cancún?! Os habitantes de Cancún são só turistas. Quando temos uma companhia aérea a trabalhar assim, estamos com objetivos que não interessam ao turismo de Portugal.

A TAP, até à pandemia, não estava a servir totalmente os interesses do turismo?

Não estava a servir totalmente os interesses do turismo português; estava a servir razoavelmente. O que estou a dizer é que a TAP em si é que estava desequilibrada.

Uma TAP pública tem de servir mais os interesses do turismo?

Exato. Uma TAP pública tem de servir mais os interesses e tem de ir a todos os aeroportos. Não é aceitável que a TAP não tenha mais transporte aéreo para o Porto e para o Algarve.

A Portugália pode vir a fazer mais ligações ponto a ponto a partir do Porto e de Faro. É uma opção bem vista pela hotelaria?
É. Porque é que as low-cost funcionam bem...

Mas a Portugália não será uma low-cost, segundo o ministro.
Chamem-lhe o que quiserem. As low-cost fizeram várias alterações ao transporte aéreo. Não havia bagagem, quando passou a haver, teve de se pagar, mas os lugares são mais pequeninos e tudo ficou de baixo custo.

Mas abriu o turismo.
Sim, mas não fazem voos de longa distância.

Não são tão rentáveis.
Pois, mas interessa que a TAP, ou a Portugália, façam esses voos, que vão buscar gente no ponto a ponto.

Na Europa?
Exatamente. As low-cost tiveram a virtude de colocar Portugal no mapa. Portugal é periférico e antes das low-cost era periférico tanto em termos de distância como de custos. Mas essa situação foi ultrapassada com as low-cost. A Portugália tem aí um campo para transportar e servir o turismo. Há situações em que é importante fazer esse transporte ponto a ponto porque há cada vez mais pessoas a quererem deslocar-se, e é rentável. As pessoas cada vez menos querem fazer escalas. É uma boa via mas há voos intercontinentais que se têm de fazer e não podem depender todos de Lisboa.

Defende que o hub em Lisboa é para manter mas deve ser dado mais destaque ao Porto?
Com certeza. A região Norte, além de ter uma população maior que o Sul, tem outra coisa: a Galiza. Um terço dos passageiros que saem do Porto são da Galiza. A partir do aeroporto deles - seja Vigo ou Santiago de Compostela - têm de ir a Madrid para depois irem para qualquer parte do mundo. No Porto, deixam o carro no aeroporto e embarcam para os EUA ou para o Brasil. O aeroporto do Porto não é para ser visto só como da região Norte; é da região Norte e Galiza.

Que rotas é essencial manter?
As rotas das principais cidades da Europa são fundamentais e não acredito que haja aí cortes. Os EUA e o Brasil são outros dois países que têm vindo a crescer muito o número de turistas e vão continuar a crescer. O programa Stopover da TAP, em relação aos EUA, teve um grande sucesso. Todas essas zonas são importantes continuar. A diáspora portuguesa é importante.

Com o Orçamento foi aprovada uma avaliação estratégia ambiental para o novo aeroporto de Lisboa. Como é que vê esta situação?
Penso que há um problema político, não tanto um problema ambiental. O Montijo só não foi para diante porque houve duas câmaras que se opuseram. Questiono se, amanhã, mediante esse estudo, se for decidida outra localização, como Alcochete, não haverá municípios que vão votar ao contrário. Há aqui a quadratura do círculo para resolver. A lei está errada. Aquilo que se deveria definir, além de tudo, era a lei. Modificá-la. A hotelaria, o turismo, não estão contra a avaliação ambiental estratégica. Estamos contra o aeroporto de Alcochete por uma razão: prevê a anulação da Portela, e se prevê a anulação da Portela, nós estamos completamente contra. E a razão é fácil.

Mas está no centro da cidade...
Está à entrada da cidade e é uma vantagem estratégica que o turismo iria perder se passarmos a ter o aeroporto de Alcochete e deixar-mos de ter a Portela. Além de que deitamos fora o que está construído no aeroporto da Portela. Não estou contra o estudo que se pretende fazer e comparar os aeroportos. Penso que a avaliação estratégica ambiental vai ser favorável ao Montijo. Vou dar três situações que existem para o aeroporto de Alcochete. A primeira é: quem vai pagar a desminagem do campo de tiro e construir outro?! Não é ANA. Vai aumentar a concessão ? Se vai aumentar a concessão perdemos dinheiro. Quem vai pagar?! Os cidadãos. O Montijo era pago pelas taxas aeroportuárias. Nem era preciso aumentar o prazo. Em segundo, o aeroporto de Alcochete ficará assente na falha que deu origem ao terramoto de 1755. E, por último, fica em cima do maior depósito aquífero da Península Ibérica.

Com tudo isso, porque é que estamos a debater isto?
Porque é político. A lei quando foi feita, ao tempo do governo socialista da altura, se calhar foi feita para facilitar o aeroporto ir para Alcochete. E agora saiu a situação ao contrário; o governo que veio depois optou pelo Montijo. O desenvolvimento do Montijo diria-se que é por uma questão de urgência. Não é só.

Tem a situação económica.
Tem a situação económica. Não podemos decidir a nossa vida por uma questão estratégica ambiental. Se dissermos que, por uma questão estratégica ambiental há um sítio que está vedado, e não foi o caso do Montijo, tudo bem. O Montijo foi aprovado mas com condicionamentos. Vamos supor que os dois têm avaliação ambiental positiva - um tem umas condições, outro tem outras - depois temos de passar à avaliação estratégica geral. Não podemos fazer um plano estratégico só baseado no ambiente. Temos de saber que, se se fizer Alcochete vai deixar de haver a Portela, vai demorar mais tempo e tem menos receitas para o turismo durante seis, sete anos.

As companhias não estavam favoráveis à solução Alcochete?
Não estava porque lá está: sabem que a situação de Alcochete fica longe de Lisboa. Alcochete só faz sentido se fosse por e simplesmente o hub e se mantivessem a Portela para as tais ligações ponto a ponto.

Para a hotelaria, tudo o que elimine a Portela é negativo?

É negativo. Mas já dissemos isto há 20 anos.

Veja os vídeos da entrevista aqui.

in Dinheiro Vivo, por Ana Laranjeiro

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